
São Paulo - A casa discreta no tradicional bairro do
Ipiranga em nada lembra os palácios de Brasília mas seu principal inquilino ali
trabalha cerca de 10 horas por dia, com a mesma disposição que, nos oito anos
em que governou o Brasil, extenuava auxiliares - hoje reduzidos a uma pequena
equipe.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levanta-se em São Bernardo do
Campo às seis horas da manhã, faz duas horas de exercícios físicos, toma café e
chega ao instituto que leva seu nome por volta das 9h, raramente saindo antes
das 20h. Ali recebe políticos, empresários, sindicalistas, intelectuais,
agentes sociais e personalidades em busca de seu apoio a uma causa ou projeto.
Quase três anos após deixar a Presidência e depois da vitória contra o câncer,
Lula declara-se completamente "desencarnado" do cargo e com a saúde
restaurada, o que a voz, agora limpa das sequelas do tratamento, confirma.
Por telefone, ele é alcançado também por
interlocutores de diferentes países, por convites para viagens e palestras no Brasil e no exterior. No ano que vem, o ritmo vai cair,
pois ele vai ajudar, "como puder", na campanha da sucessora Dilma
pela reeleição. "Se ela não puder ir para o comício num determinado dia,
eu vou no lugar dela. Se ela for para o Sul, eu vou para o Norte. Se ela for
para o Nordeste, eu vou para o Sudeste", disse o ex-presidente.
Nas instalações simples da casa no Ipiranga, o que
denuncia o inquilino são as fotografias nas paredes, de momentos especiais da
Presidência, selecionadas pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, que continua a seu
lado, assim como os assessores Clara Ant, Luiz Dulci e Paulo Okamoto. Na sala
de trabalho, em vez das cigarrilhas, chicletes sabor canela. Foi lá que, na
quinta, 26, Lula recebeu o Correio para uma entrevista de duas horas em que não
parou de falar. Da vida no poder e fora dele, da disputa eleitoral do ano que vem,
passando por espionagem, Mais Médicos, mensalão e novos partidos.
Lula também falou, pela primeira vez, sobre a
Operação Porto
Seguro, a investigação da
Polícia Federal, que revelou um esquema de favorecimentos em altos cargos do
governo federal e provocou a demissão de Rosemary Noronha, a ex-chefe do
gabinete da Presidência da República em São Paulo. E disse ter saudades de
Brasília: "O nascer e o pôr
do sol no Alvorada
são inesquecíveis".
Considerado um eleitor de 58 milhões de votos por
conta do total de apoios conquistados na última eleição que disputou, em 2006,
Lula confessou, sem dissimulação, que deixar o poder foi "como se me
tivessem desligado da tomada". E que não foi fácil aprender a ser
ex-presidente. Para evitar a tentação de dar palpites sobre o novo governo,
disse que decidiu visitar 32 países nos primeiros 10 primeiros meses de 2011,
até que o câncer foi descoberto, no dia de seu aniversário, 27 de outubro.
Vencido o calvário do tratamento, ele voltou à
rotina no Instituto, vacinou-se contra o "Volta Lula", antecipando o
lançamento da candidatura Dilma, e agora se prepara para mais uma campanha
eleitoral. Ele acha que a presidente será reeleita, lamenta o desenlace da
aliança com Eduardo Campos, embora reconheça as qualidades do governador para a
disputa, evita especular sobre o destino dos votos de Marina Silva, caso ela
saia da corrida, e parece revelar preferência por José Serra como adversário
tucano, ao dizer que o PSDB terá mais trabalho para tornar Aécio Neves
conhecido. Uma contradição com o que ele mesmo fez, ao lançar uma também
desconhecida Dilma como candidata em 2010. Uma coisa é certa.
"Desencarnado" e em plena forma, Lula será um "grande
eleitor" em 2014. (Por Tereza Cruvinel e Leonardo Cavalcanti)
ENTREVISTA
Deixar de ser presidente trouxe alívio
ou pesar?
Não é fácil falar sobre isso. Eu achava que seria
simples deixar a Presidência. O (João) Figueiredo, que saiu pela porta dos
fundos, até pediu para ser esquecido. Quando a pessoa não sai bem, quer
esquecer mesmo. Mas eu saí no momento mais auspicioso da vida de um governante.
Eu brincava com o Franklin (Martins): se eu ficar mais alguns meses, vou
ultrapassar os 100% de aprovação. Foi como se me desligassem de uma tomada. Num
dia você é rei, no outro dia não é nada. Depois de entregar o cargo, cheguei a
São Bernardo e havia um comício, organizado por amigos e pessoas do sindicato.
O Sarney me acompanhou. Antes, visitei o Zé Alencar, choramos juntos. Eu fiquei
danado da vida porque achava que ele devia ter ido à posse e subido a rampa de
maca, mas os médicos não deixaram. Participei do comício e quando deu 11 horas
da noite eu subi para o apartamento. Ao me despedir dos que trabalharam comigo
na segurança e voltariam a Brasília, o general me disse: "Olha presidente,
daqui a três dias os celulares da Presidência serão desligados e os carros
serão recolhidos". Mas levaram apenas três minutos para me desconectarem.
Este é o lado hilário da coisa. Mas ser ex-presidente é um aprendizado sobre
como se comportar, evitando interferir no novo governo. Quem sai precisa limpar
a cabeça, assimilar que não é mais presidente. Mas é difícil sair de um dia a
dia alucinante, acordar de manhã e perguntar: e agora?
Mas como conseguiu resolver o
"desligamento"?
Entre março de 2011 e a descoberta do meu câncer,
em outubro, eu fiz 36 viagens internacionais, visitei dezenas de países
africanos e latino-americanos. Eu queria ficar fora do Brasil para vencer a
tentação de ficar dando palpites. Decidi voltar para o Instituto, que eu já
tinha, e comecei a trabalhar aqui. No dia do meu aniversario fui levar a Marisa
para fazer um exame mas acabaram descobrindo o câncer em mim. E aí foi um ano
de tortura. Nunca pensei que fosse tão difícil fazer quimioterapia e
radioterapia. A doença, a internação, o fato de não poder falar ajudaram no
desligamento. Fui desencarnando e hoje isso está bem resolvido na minha cabeça.
Este ano, no evento dos 10 anos de governos do PT, quando eu disse que a Dilma
era minha candidata, eu queria tirar de vez da minha cabeça a história de
voltar a ser candidato. Antes que os outros insistissem, antes que o PT viesse
com gracinhas, antes que os adversários da Dilma viessem para o meu lado, eu
resolvi dar um basta e fim de papo.
Mesmo com eventuais "Volta
Lula", com manifestações, crises?
Mesmo. Hoje há pessoas defendendo o fim da
reeleição. Eu sempre fui contra a reeleição mas hoje posso dizer que ela é um
beneficio, uma das poucas coisas boas que copiamos dos americanos. Em quatro
anos, você não consegue realizar uma única obra estruturante no pais. Depois, o
eleitor pode julgar o governante no meio do período. Bush pai não se reelegeu,
Carter não se reelegeu. Mas foi bom para os Estados Unidos o Clinton ter
governado oito anos.
O senhor não ficou tentado a buscar o terceiro mandato, quando o deputado Devanir apresentou aquela emenda?
O senhor não ficou tentado a buscar o terceiro mandato, quando o deputado Devanir apresentou aquela emenda?
Eu fui contra. Chamei o partido e disse: não quero
brincar com a democracia. Se eu conseguir o terceiro, amanhã virá alguém
querendo o quarto, o quinto. Sou amplamente favorável à alternância no poder,
de pessoas e de segmentos sociais. Comigo, pela primeira vez um operário chegou
à presidência. Com a Dilma, a primeira mulher. Quer mais mudança do que isso?
Quero que o povo continue mudando. Para errar ou acertar, não importa.
Deixar o poder traz mais liberdade?
Eu nunca tive liberdade, nem antes nem depois.
Fiquei oito anos em Brasília sem ir a um restaurante, a um aniversario, a um
casamento, porque tinha medo daquele mundo futriqueiro de Brasília. Mesmo hoje,
prefiro passar o final de semana em casa, de bermudas.
Mas afora os problemas do poder, alguma
saudade de Brasília?
Olha, o nascer e o pôr do sol no Alvorada são para
mim inesquecíveis. Todos os domingos de manhã, eu e Marisa pescávamos. Há um lago
no Torto, outro no Alvorada, e há o Lago Paranoá. Houve um dia em que a Marisa
pegou 26 tucunarés, ali no píer onde fica o barco da Presidência. Disso eu
tenho saudade. Não pude conviver, por precaução minha. Mas o céu de Brasília é
muito bonito. O clima é extraordinário, o padrão de vida do Plano Piloto é
invejável. Não é mais aquela cidade criticada porque não tinha esquinas. O povo
soube fazer suas esquinas.
O que considera como mudanças importantes deixadas por seu governo?
As coisas que foram feitas, se em algum momento
foram negadas, a verdade foi mais forte que a versão. A ONU acaba de
reconhecer, com dados irrefutáveis, que o Brasil foi o pais que mais combateu e
reduziu a pobreza nos últimos 10 anos. Eu queria provar que quando o Estado
assume a responsabilidade de cuidar dos pobres, isso tem efeitos. Tenho muito
orgulho de ter sido um presidente que, sem ter diploma universitário, foi o que
mais criou universidades no Brasil, o que mais fez escolas técnicas, o que
colocou mais pobres na universidade... Já houve presidentes da República que
tinham diplomas e mais diplomas, fizeram muito pouco pela educação. Nós
provamos que era possível fazer porque decidimos que educação não era gasto,
era investimento. A outra coisa de que muito orgulho é de ter sido o primeiro
presidente que fez com que o povo se sentisse na Presidência.
E o quê o senhor considera o maior erro de seu governo?
Certamente cometi muitos erros. Os adversários
devem se lembrar mais deles do que eu. Mas fiz as coisas que achava que poderia
fazer. Há quem me pergunte se não me arrependo de ter indicado tais pessoas
para a Suprema Corte. Eu não me arrependo de nada. Se eu tivesse que indicar
hoje, com as informações que eu tinha na época, indicaria novamente.
E com as informações atuais?
Eu teria mais critério. Um presidente recebe listas
e mais listas com nomes, indicados por governadores, deputados, senadores,
advogados, ministros de tribunais. E é preciso ter quem ajude a pesquisar e
avaliar as pessoas indicadas. Eu tinha o Márcio Tomas Bastos no Ministério da
Justiça, o (Dias) Toffoli na Casa Civil... Uma coisa que lamento é não ter
aprovado a reforma tributaria, e tentei duas vezes. Hoje estou convencido de
que não poderá ser feita como pacote, mas fatiada, tema por tema. Eu mandava um
projeto com apoio de todo mundo mas as forças ocultas de que falava o Jânio se
apresentavam nas comissões do Congresso e paravam tudo. Eu receava também que
segundo mandato fosse repetitivo, com ministros não querendo trabalhar. Foi aí
que tivemos a ideia do PAC. Mas acho que poucos conseguirão repetir o que
fizemos entre 2007 e 2010. Era o time do Barcelona jogando. Tudo fluiu bem.
Posso ter errado, mas não tenho arrependimentos. Tenho frustração de não ter
feito mais.
Voltando à indicação dos ministros do
STF. Hoje, se o senhor pudesse voltar no tempo...
Nem podemos pensar nisso. Eu não sou mais
presidente, eles já estão indicados e irão se aposentar lá.
O senhor continua fazendo palestras?
Tenho feito mas vou reduzir. No ano que vem vou me
dedicar um pouco à campanha. Vocês sabem que um ex-presidente da Republica não
tem aposentadoria. Não tendo aposentadoria de outra origem, terá que ser
mantido pelo partido dele ou terá que se virar. Mas você só é convidado para
fazer palestras se tiver sido exitoso no governo. O Fernando Henrique inovou e
passou a fazer palestras. O PT ofereceu-me um salário e eu agradeci. Eu mesmo
ia tratar da minha sobrevivência.
O que acha das criticas de que
existiria conflito de interesses quando as empresas têm contratos com o
governo?
Acho uma cretinice. Primeiro porque não faço nada
além do que eu fazia como presidente. Eu tinha orgulho de chegar a qualquer
pais e falar da soja, do etanol, da carne, da fruta, da engenharia, dos aviões
da Embraer... Eu vendia isso com o maior prazer do mundo. Com orgulho. Eu
achava que isso era papel do presidente da Republica. Quando Bush veio aqui,
fomos a um posto que vendia etanol. E havia lá um carro da Ford e outro da GM.
Chamei o Bush para tirarmos uma foto e ele disse que não podia fazer merchandising
de carro americano. Só que ele estava com um capacete da Petrobras na cabeça.
Eu falei: "Então fica você aqui que eu vou lá". Se eu puder vender as
empresas brasileiras na Nigéria, no Catar, na Líbia, no Iraque, na África, eu
vou vender. Estas críticas também refletem o complexo de vira-lata. É não
compreender o sentido disso. Tenho orgulho de saber que quando cheguei à
Presidência não havia uma só fabrica brasileira na Colômbia e hoje existem 44.
Havia duas no Peru e hoje são 66. De termos ampliado nossa presença na
Argentina ou na África. Se não formos nós, serão os chineses, os ingleses, os
franceses. E não são apenas empresas de engenharia. Hoje temos fábrica de retro
virais em Moçambique, SENAI e escolinhas de futebol do Corinthians em mais de 13
países africanos. Agora mesmo me pediram para tentar levar o vôlei para a
África, onde o esporte não existe. E vou ajudar com o maior prazer. Só não vou
jogar porque tenho bursite. Mas veja a malandragem. Todas as empresas,
inclusive as de jornais e de televisão, têm lobistas em Brasília. Mas são
chamados de diretor corporativo ou institucional. Agora, se alguém faz pelo
pais, é lobista. Faz parte da pequenez brasileira. Veja o caso da Copa do
Mundo. Todo país quer sediar uma Copa do Mundo. O Brasil não pode. Ah, porque
temos problemas de saúde e moradia! Todos os países têm problemas, e por não
pode ter Copa do Mundo e Olimpíada? E o quanto uma nação ganha com isso, do
ponto de vista cultural, do ponto de vista do desenvolvimento? Qual é a
denúncia contra as obras?
Nos protestos, a crítica era ao custo das obras...
Ora, se em 1960 o Brasil pôde fazer um estádio para
a Copa do Mundo, em 2013 não podemos fazer outros? Pergunto qual é a denuncia?
Eu deixei dois decretos, um sobre a Copa outro sobre a Olimpíada, que estão no
site da CGU. Perguntem ao Jorge Hage onde tem corrupção na Copa. O TCU designou
um ministro, o Valmir Campelo, encarregado de fiscalizar especificamente os
gastos com a Copa. Perguntem a ele onde há corrupção. A Copa está marcada e tem
que ser feita com a maior grandeza. Se alguém praticar corrupção, que seja
posto na cadeia. Já conversei com os patrocinadores sobre a necessidade de uma
narrativa diferente para a Copa do Mundo. Vi na TV pessoas chorando no Japão,
que vai sediar uma Olimpíada. E vi um jornalista dizer que tudo bem, o Japão
está retomando o crescimento, diferentemente do Brasil, que ainda é pobre.
Então Olimpíada é só para países do G-8? E ainda que fosse, o Brasil está no
G-6. Não me conformo com o complexo de vira lata e com o denuncismo infundado.
Precisamos de uma lei que puna também o autor de denúncia falsa.
Falando nas manifestações, o que mudou
com elas no Brasil?
Eu acho que fizeram muito bem ao Brasil. Com
exceção dos mascarados. Todas as reivindicações que apresentaram, um dia nós
também pedimos. Veja o discurso de (Fernando) Haddad na campanha de São Paulo:
"Da porta da casa para dentro a vida melhorou, mas da porta para fora
ainda precisa melhorar." Hoje muito mais gente anda de carro mas o
transporte público não melhorou. Eu andava de ônibus lotados como latas de
sardinha em 1959, e continua a mesma coisa. O Haddad agora me disse:
"Precisando de tanto dinheiro, conseguimos reduzir em 50 minutos o tempo
de viagem só com latas de tinta". As faixas exclusivas para ô ônibus
tiveram uma aprovação de 93% das pessoas. O povo nos disse o seguinte: "Já
conquistamos algumas coisas e queremos mais". As pessoas querem mais, mais
salário, mais transporte, melhorarias na rua, e isso é extraordinário. Nem dá
mais para ficar dividindo tarefa: isso é com o prefeito, isso com o governador,
aquilo com o presidente. Agora é tudo junto.
Haddad não errou, quando demorou a
recuar na tarifa?
Houve muita gente ponderando para o Haddad que era
preciso recuar. Se ele tivesse dado o aumento em janeiro, não tinha acontecido
o que aconteceu. Ele e o prefeito do Rio foram convencidos de que, adiando o
aumento, ajudariam no controle da inflação. Eles concordaram e tudo caiu nas
costas deles. Meu primeiro movimento foi mostrar ao Haddad que aquilo não era
contra ele, que ainda estava muito novo no cargo: "Haddad, levante a
cabeça, tira proveito disso, que bom que o povo esta se manifestando".
Acho que ele demorou uns dois ou três dias mas foi correto. E o transporte é
caro mesmo... Enfim, as manifestações nos ensinaram que o desejo do povo de
mudar as coisas é infinito. Nós todos queremos sempre mais. Quem consegue um
aumento de 10% nos salários e logo depois quer outro. Quem consegue comprar
carne de segunda passa a querer carne de primeira. Tínhamos 48 milhões de
pessoas que andavam de avião em 2007. Em 2012, eram 103 milhões. Hoje tem gente
que entra no avião e não sabe nem guardar a mala. Alguns acham isso ruim. Eu
acho ótimo. Tem mais gente indo a restaurantes, a museus, a institutos de
beleza, e isso é um bom sinal. A única coisa que eu critico é a negação da
política. Ela sempre resulta em algo pior, como o fascismo, o nazismo. Tenho
dito ao PT para enfrentar o debate. Vamos perguntar aos tucanos por que eles
derrotaram a CPMF, tirando 40 bilhões da saúde por ano em meu governo, achando
que iam me prejudicar. E eu disse: quem vai pagar é o povo.
E o programa Mais médicos, é uma boa
solução?
É uma coisa fantástica mas vai fazer com que o povo
fique ainda mais exigente com a saúde. O sujeito vai subir o primeiro degrau.
Vai ter um médico que vai lhe pedir os primeiros exames, e a saúde vai ser
problema outra vez. Discutir saúde sem discutir dinheiro, não acredito. E não
adianta dizer, como fazem os hipócritas, que o problema é só de gestão. Chamem
os 10 melhores gestores do planeta e perguntem como oferecer tomografia,
ressonância, tratamento de câncer, sem dinheiro. O hipócrita diz: "Eu pago
caro por um plano de saúde, porque o SUS ao me entende". Mas quando ele
vai fazer a declaração de renda, desconta tudo do imposto a pagar. Então quem
paga a alta complexidade para ele é o povo brasileiro. E aí vem a FIESP fazer
campanha para acabar com a CPF. Não foi para reduzir custos mas para tirar do
governo o instrumento de combate à sonegação.
O Mais Médicos é uma marca de governo
para Dilma?
Os médicos brasileiros que protestaram sabem que
cometeram um erro gravíssimo. O (Alexandre) Padilha tem dito, corretamente:
"Não queremos tirar o emprego de médico brasileiro. Queremos trazer
médicos para atender nos locais onde faltam médicos brasileiros". Em vez
de protestar, eles deveriam ter feito um comitê de recepção aos colegas
estrangeiros. E Deus queira que um dia o Brasil forme tantos médicos que possa
mandar médicos os para um pais africano. É admirável que um pais pequeno como
Cuba, que sofre um embargo comercial há 60 anos, tenha médicos para nos ceder.
Hoje há maquinas que descobrem o câncer com menos de um milímetro. Mas quantos
têm acesso a isso? Saúde boa e barata e não existe, alguém tem que pagar a
conta. Num país em construção, como o nosso, sempre haverá protestos. Temos de
consolidar a democracia, sabendo que ela não pode ser exercitada fora da
política. Tem gente que diz "eu não sou político" e começa a dar
palpite na política. Esse é o pior político. Como eu fui ignorante, dou meu
exemplo. Em 1978, no auge das greves do ABC, eu achava o máximo dizer:
"Não gosto de política nem de quem gosta de política". A imprensa
paulista me tratava como herói. Eu era "o metalúrgico". Dois meses depois,
eu estava fazendo campanha para Fernando Henrique, que disputava o Senado por
uma sublegenda do MDB. Dois anos depois, eu estava criando um partido político.
Ninguém deve ser como o analfabeto político do Bertolt Brecht. Não se muda o
país sem política.
Na semana passada, foram criados dois
novos partidos políticos, houve um grande troca-troca de deputados, para lá e
para cá. Como você vê isso?
O fato de você legalizar um partido é o menos
importante. Levar 10, 15 deputados, também. Eu quero saber é se na próxima
eleição estes partidos passarão pelo teste das urnas.
Marina Silva talvez não consiga registrar o partido dela...
Quando nós fomos construir o PT, as exigências
legais eram até maiores. Na primeira eleição, eu achava que seria eleito
governador de São Paulo. Eu era uma figura estranha, um metalúrgico, levava
muita gente aos comícios. Fiquei em quarto lugar. O Estadão fez uma pesquisa,
dizendo que eu tinha 10%. Eu logo xinguei a imprensa burguesa (risos). E eu
tive exatamente 10% (risos). Então, essas pessoas que estão criando partidos
vão ter de trabalhar muito. E precisamos evitar as legendas de aluguel. Não
serei contra, depois de tudo que fiz pela criação do PT. Eu não sei se a Marina
vai cumprir as exigências legais. Ela é uma personalidade política do país, tem
todo direito de criar um partido. Agora, tem de ter coragem de dizer que é
partido, não tem que inventar outro nome, dizer que não é partido, é uma rede.
É partido e vai ter deputado, como todo partido. Mas o que vai contar nas
eleições de 2014 são os partido existentes, o PT, o PMDB, o PSB, o PSDB e
outros mais.
Agora, sem a candidatura de Marina, a
disputa presidencial se alteraria, não?
Ela ainda tem tempo. Ela tem de assistir o dia
final do julgamento com a ficha de um outro partido do lado. Eu acho que a
Marina tem o direito de ser candidata. Marina é um quadro político importante
para o país. Caso ela não consiga o partido e não seja candidata, será
importante saber para onde irão os votos dela. Ninguém pode perder o pé da
realidade do país, achar-se melhor que o Congresso, que lá só tem corrupto,
como vejo alguns dizerem.
O senhor mesmo já falou, quando disse
que no Congresso havia 300 picaretas...
O Congresso é a cara da sociedade brasileira.
Ulysses Guimarães dizia: "Toda vez que a sociedade começa a falar em muita
mudança no Congresso, o Congresso piora". Quase 300, na realidade 280
deputados, foram responsáveis de alguma forma pela absolvição do deputado Natan
Donadon em plenário... Veja que eu não errei. O que acontece no Congresso acontece num clube de
futebol, acontece no condomínio que a gente mora, na sauna... Você tem gente de
qualidade, você tem gente de menos qualidade, gente comprometida com os setores
mais à esquerda, gente comprometida com os setores mais à direita. Se as
pessoas fossem de direita ou de esquerda era melhor do que serem simplesmente
fisiológicas. O que eu acho que mata na política é o fisiologismo. E você não
vai acabar com isso. É uma cultura política que está estabelecida no mundo, não
é só no Brasil. E não é uma questão nacional, senão a Itália não tinha o
Berlusconi.
Mas o senhor defende a reforma
política, não é buscando superar estes problemas?
Eu defendo a reforma política mas acho que ela só
virá quando tivermos Constituinte própria para fazê-la. O Congresso não vai
aprovar. Pode fazer uma mudança aqui, outra ali, mas não uma reforma profunda.
Defendo o financiamento público porque eu acho que é a forma mais barata e mais
honesta de fazer campanha. Por que os empresários não defendem o financiamento
público? Não seria melhor para eles, não ter que dar dinheiro para candidato?
Mas eles preferem que os políticos dependam deles. Eu li a biografia do Juscelino,
os dois volumes do (Getúlio) Vargas, do Lira Neto (escritor cearense), estou
lendo a biografia de Napoleão Bonaparte e a do Padre Cícero. A política é
sempre a mesma. Nos Estados Unidos, Abraham Lincoln precisou vencer os mesmo
obstáculos. Penso que com partidos mais sérios e valorizados, com mais
seriedade nas campanhas, a política irá se qualificando e motivando mais. Eu
sempre digo aos jovens: mesmo que você não acredite em mais ninguém, e ache que
todos são corruptos, não desista. O político honesto que você procura pode
estar dentro de você. Ao invés de negar a política, entre na política.
O momento mais delicado da Dilma
ocorreu durante as manifestações. E naquele momento, o PMDB, o principal aliado
do PT, tentou emparedar a presidente no Congresso...
O ideal de um partido político é eleger um
presidente da República, eleger a maioria dos governadores, eleger a maioria
dos senadores, a maioria dos deputados federais. Isso é o ideal. Não parece
maravilhoso? Pois bem, em 1987, o PMDB teve isso. O PMDB elegeu 306
constituintes e 23 governadores. O (José) Sarney teve moleza? Não teve. O
principal adversário do Sarney era Ulysses Guimarães. Por isso eu prezo a
democracia. Eu fico imaginando se o PT tivesse 400 deputados, 79 senadores.
Iria ser fácil? Temos de aprender a lidar com a realidade. Angela Merkel acabou
de ganhar as eleições na Alemanha mas, para governar, terá que fazer aliança.
E a divisão interna dentro do PT, entre lulistas e dilmistas?
Se houver alguém que se diz lulista e não dilmista,
eu o dispenso de ser lulista. A Dilma é a presidenta da República e ela
representa o PT. Eu não estou pedindo que as pessoas gostem de Dilma. Eu quero
que as pessoas a respeitem na função institucional e saibam que o PT está lá
para apoiá-la. O povo de Brasília votou no (José Roberto) Arruda porque
acreditou que o Arruda ia fazer as mudanças prometidas. Não deu certo. Você vai
dizer que o eleitor do Roriz era pior do que o eleitor do Agnelo? Não era. O
eleitor vota esperando que as coisas melhorem. Se tivermos agora como
candidatos Dilma, Aécio, Eduardo Campos e Marina, o Brasil está qualificado.
Todos candidatos de centro-esquerda para a esquerda.
O senhor tentou evitar o rompimento de
Eduardo Campos com o governo . Agora que aconteceu, como ficará este relacionamento.
Ele pode sair do campo de sua influência, o campo da esquerda?
Eu não tenho influência. Mas eu gostaria que não
tivesse acontecido o que aconteceu.
Quem errou?
Não sei, acho que todo mundo errou. E eu posso
estar errado também. Pode ser que o governo e o Eduardo estejam certos no
rompimento, e eu errado. Mas eu não dou de barato que o Eduardo é candidato.
Ele tem potencial? Ele tem estrutura, sabedoria política? Tem. Ele pode ser
candidato, como o Aécio, a Marina. Eu só acho que foi um prejuízo para a gente
ter o PSB, e sobretudo o Eduardo Campos, do outro lado. Isso aconteceu apenas
quando o Garotinho foi candidato contra mim, em 2002. Se ele vai ser candidato,
nós temos de ter uma regra de comportamento. Se a eleição não terminar no
primeiro turno, poderemos ter aliança no segundo turno. Ma eu não dou de barato
que as coisas estão definidas na eleição. Nem para o Eduardo Campos ser
candidato, nem para o Aécio ser candidato. Sabe-se lá o que o Serra vai tramar
contra o Aécio? Nem para a Marina. Eu acho que a gente tem de ver o seguinte:
temos de esperar, até março do próximo ano. São mais seis meses pela frente,
até as pessoas anunciarem de fato suas candidaturas. Sei apenas que, entre
todos, a Dilma é a que tem mais credenciais e é mais qualificada para governar
o Brasil. Eu vou percorrer o Brasil como se eu fosse candidato.
Qual será a diferença, na disputa com o
PSDB, em ter o Aécio como candidato, e não o Serra?
Eu acho que vai trazer mais dificuldades para o
PSDB. O Aécio vai ter que se tornar conhecido. O Serra já é conhecido, tem o
recall de outras disputas. Não é fácil criar um candidato novo num país do
tamanho do Brasil. Então eu não sei como o PSDB vai conseguir se livrar do
Serra ou se o Serra vai conseguir provar que tem mais qualidades para ser
candidato. Mas o PT não pode escolher adversário. Tem que enfrentar quem
aparecer, e acho que pode ganhar dos dois.
Sua participação na campanha da Dilma
agora será diferente da que teve em 2010?
Tem de ser diferente. Em 2010 a Dilma não era
conhecida. Fizemos uma campanha para que ela se tornasse conhecida, e para
mostrar ao eleitor o grau de confiança que eu tinha nela. Obviamente que depois
de quatro anos de governo a Dilma passou a ser muito conhecida e conseguiu
construir a sua própria personalidade. Então já tem muita gente que vai votar
na Dilma independentemente do Lula pedir. Naquilo que eu tiver influência, nas
pessoas que eu tiver influência, eu vou pedir para votar na Dilma. O que eu vou
fazer na campanha depende dela. Eu não quero estar na coordenação, eu quero ser
a metamorfose ambulante da Dilma. Estou disposto. Se ela não puder ir para o
comício num determinado dia, eu vou no lugar dela. Se ela for para o Sul, eu
vou para o Norte. Se ela for para o Nordeste, eu vou para o Sudeste. Isso quem
vai determinar é ela. Eu tenho vontade de falar, a garganta está boa. Eu estou
com mais disposição, mais jovem. Apesar da idade, eu estou fisicamente mais
preparado. Estou com muita saudade de falar. Faz tempo que eu não pego um
microfone na rua para falar. Conversar um pouco com o povo brasileiro. Vou
ajudar. Se for importante ficar quieto, eu vou ficar quieto. A única que coisa
que eu não vou fazer é cantar, porque eu sou desafinado, mas no resto, ela pode
contar comigo.
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